domingo, 8 de abril de 2018

A Gorda

"A Gorda", de Isabela Figueiredo (Caminho)

Opinião:
Aquando o lançamento deste livro ouvi falar muito nele e fiquei interessada. O clube de leitura foi uma boa desculpa para lhe pegar.
Encontrei neste livro o que esperava?
Não, mas não quero com isso dizer que não gostei de algumas situações e da forma como foram tratadas, nomeadamente a "prisão" proporcionada pela debilidade crescente dos pais, a sua experiência de "maternidade", a rejeição os outros pelo facto de ser gorda, e outros excertos de vida que me absorveram.


Maria Luísa é uma personagem complexa, extrovertida, revoltada mas também reprimida. Algumas das outras personagens têm também histórias interessantes, e por vezes até parece que o livro é mais sobre elas do que sobre ela mas na verdade não conhecemos nenhum dos outros tão a fundo como conhecemos a Maria Luísa.


Escrito numa espécie de recolha de remendos/memórias, penso que teria desfrutado mais do livro se a narrativa não andasse sempre para trás e para a frente. Não precisava ser linear, apenas mais focada.
Há muito sentimento nestas páginas. Muita crítica e, talvez, um pouco de rancor.
Algumas passagens são lindíssimas, cruas, reais.


Num nota mais pessoal, eu luto com a obesidade há vários anos e esperava encontrar aqui algo que fizesse as outras pessoas perceberem um pouco melhor algumas dificuldades que encontramos na vida. Não temos nenhuma desabilidade física, mas, sejamos realistas, as gordas nem sempre são vistas como normais. E nisto discordo do que a autora diz porque os homens gordos também são bem menosprezados pela sociedade, e especialmente pelas mulheres.
Mas não são só os gordos, infelizmente. Somos constantemente bombardeados com imagens, com propaganda, com opiniões que nos dizem como nos devemos vestir, comportar, ser (homens e mulheres). Como devemos existir! Mas qual é na verdade o apelativo de um mundo onde todos são iguais?
Há algo de extraordinário na diferença, não acham?


Mas regressando ao livro, achei que a segunda metade foi muito mais intensa e gratificante (a nível de leitura) do que a primeira e apesar de não ter gostado do final, penso que seja uma leitura interessante.


Sinopse:
Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Que país visitar?

O Clube de Leitura de Braga está a pedir a ajuda de todos num escolha literária:


https://poll.fbapp.io/pais-a-visitar-em-livros-junho-2018


«De dois em dois meses vamos passar a pedir a vossa ajuda para escolher a nacionalidade do autor que vamos ler, de uma lista de países que ainda não visitamos através da literatura no nosso clube.
Qual destes três vos parece mais interessante? Que autores conhecem e sugerem destas nacionalidades?»


E já agora aproveito para divulgar quais os livros de que vamos falar na próxima sessão do Clube de Leitura de Braga (na Bertrand) já este sábado que vem:




- "A Gorda", de Isabela Figueiredo;
- "Talco de Vidro", de Marcellon Quintanilha.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Maresia e Fortuna

“Maresia e Fortuna”, de Andreia Ferreira (Coolbooks)

Opinião:
Para quem ainda não leu este romance, talvez o melhor seja mesmo que não descubram a que clássico este romance se remete antes de o começarem a ler.
Eu fui às cegas para esta leitura mas confesso que cedo adivinhei o "segredo". Isso, contudo, não me estragou em nada a experência de leitura. Muito pelo contrário! Acho que até tornou tudo muito mais doloroso e cruel, quando já sabia no que tudo aquilo iria resultar e em como destroçaria as personagens envolvidas quando elas mesmas soubessem a verdade.

E por falar nelas, o melhor deste romance são as suas personagens, tão cheias de falhas, tão humanas, que é difícil não nos relacionarmos com todas elas. Eu, confesso, que gostei mais da Júlia, que na sua loucura acabou por ser a que menos imprevisível se tornou. Ela nunca escondeu o que era verdadeiramente, enquanto, na realidade, todos em sua volta foram bastante cruéis, de forma proprositada ou não, mantendo-a na ignorância e, consequentemente, levando ao desfecho que teve.
Também o Eduardo foi uma personagem que me marcou, por ser o mais "verdadeiro", e talvez por isso mesmo algumas das suas decições finais não me tenham caído bem. Sem querer dar muitos spoilers, há uma cena nos capítulos finais em que ele decide ocultar um 'erro', o que, feito daquela forma, me pareceu desconexo do seu comportamento até ali.

Outra coisa que adorei no livro foram as descrições que a autora faz da belíssima Apúlia (e Fão). Cenários sujas descrições me fizeram revisitar esta povoação costeira de que tanto gosto.
Convém também notar que a escrita da autora melhorou bastante desde a sua Trilogia Soberba.

Na verdade o que menos gostei do livro foi do que, me pareceu ser, um exagero de cenas entre a Júlia e o Eduardo, e a previsibilidade do desfecho, que eu adivinhei bastante cedo. Mas, como já disse, isto não tornou a jornada menos interessante.

Em suma, Maresia e Fortuna está recheado de personagens tão cheias de falhas que foi impossivel não querer saber o desfecho de todas elas e por isso recomendo a leitura deste livro.

Sinopse:
O que é o verdadeiro amor?
Para Eduardo, de 17 anos, é a mãe e o irmão mais velho, Simão. Este, porém, tem um segredo que o empurra para a bebida e Eduardo receia que o seu irmão se suicide, tal como o pai de ambos o fizera, dez anos antes.
Júlia acredita que passou ao lado de um grande amor. Em busca da verdade que mudará a sua vida, regressa à vila de Apúlia para reconstruir um passado de que não se consegue recordar.
O caminho desta mulher perturbada está prestes a cruzar-se com o de Eduardo, trazendo à tona segredos, paixões agressivas e remorsos intemporais, com consequências devastadoras sobre a vida da outrora pacata vila piscatória.
Uma alegoria moderna de um clássico, onde os humanos se destroem sem precisarem de intervenção divina.

Clube de Leitura de Braga - Março 2018

Este fim-de-semana, no Clube de Leitura de Braga, sugerimos a leitura de:
- "O Castelo de Vidro", de Jeanette Walls e
- "Trilogia Nikopol", de Enki Bilal.


O Clube de Leitura de Braga tem lugar na Bertrand de Braga (no Liberdade Street Fashion), às 15h00 de sábado, no dia 3 de Março. Venham ter connosco para a tarde bem passada!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Illuminae

"Illuminae (The Illuminae Files 1)", de Amie Kaufman e Jay Kristoff (Nuvem de Tinta)

Opinião:
Interessa-me sempre imenso ver romances que nascem da colaboração de dois. Imagino que deva ser uma experiência extraordinária de troca de ideias, valores, estilos e ritmos.

Tanto Amie Kaufman como Jay Kristoff são autores de romances YA, de fantasia e ficção científica, já bem conhecidos do público alvo. Eu ainda não tinha tido oportunidade nem, confesso, grande curiosidade em ler qualquer dos títulos destes autores mas depois de ler “Illuminae” e “Gemina”estou a pensar mudar isso.

Illuminae começa num planeta / colónia distante e desconhecido. Uma exploração pirata, por assim dizer. Em Kerenza moram milhares de pessoas, todas dependentes dessa exploração, de forma mais ou menos directa. Kady é a nossa protagonista nesta história que começa com acção e raramente larga a adrenalina nas suas muitas páginas.
E falando em páginas … eu li a versão audiolivro, que recomendo vivamente, mas façam um favor a vocês mesmos e tenham o livro ou o ebook sempre por perto porque a edição em papel (ou digital) é fenomenal! Isto porque “Illuminae” (assim como a sequela “Gemina”) consiste num recontar dos acontecimentos através de relatórios, emails, transcrições e mais mil e uma coisas super-interessantes de ouvir e ver. Foi esta, aliás, a vertente que mais me fascinou neste livro. Não que o resto não seja bom mas esta forma de narrar está muito bem conseguida e envolve o leitor do início ao fim.

Quanto às personagens, acho que será difícil não falar bem de todas as muitas que por aqui aparecem. Até o técnico que faz a transcrição dos vídeos tem uma personalidade memorável.
Na verdade a única falha a nível de personagens advém mesmo da vilã-mor, embora tenha de admitir que ela aparece poucas vezes.
O AIDAN é, de longe, a minha personagem favorita. Esta Inteligência Artificial, que ganha uma semblante de consciência humana, com a sua consequente descida ao abismo, leva-nos uma viagem intensa.

Na verdade a única parte deste livro que me deixou indiferente foi mesmo o romance. Não senti grande química entre a Kady e o Ezra. Gostei bastante mais do relacionamento entre a Kady e o AIDAN, especialmente na parte final.

Em suma, Illuminae foi uma viagem alucinante, cheia de aventura, boas personagens e um enredo com vários níveis que me mantiveram envolvida o tempo todo. Recomendo!

Sinopse:
Illuminae é diferente de todos os livros que alguma vez leste. Através de documentos pirateados, emails, mapas, arquivos militares, transcrições de interrogatórios e mensagens, vais descobrir que o pior dia da vida de Kadie é apenas o início da história mais trepidante e arrebatadora de sempre.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Who Fears Death

“Who Fears Death (Who Fears Death 1)”, de Nnedi Okorafor (ainda não publicado em Portugal) 

Este foi um daqueles livros que me deu muito que pensar. Não é um romance fácil de ler ou de digerir mas é daqueles que primeiro se estranha e depois se entranha.
Esta história é tão rica que chega a saturar. Isso parece mau, e sê-lo-ia, se a escrita da autora não fosse tão fascinante, as personagens não fossem tão interessantes e o mundo onde se passa "Who Fears Death" não nos envolvesse tanto.
A mistura de uma áfrica semi-contemporânea com um cenário futurista e uma intensa presença do folclore tribal e africano (real e maginário), é fabulosa , mas também um pouco assoberbante.
Toda a envolvente cultural é extraordinária e só por isso o livro valeria a pena mas não é só isso que há de bom neste romance

Onyesonwu é uma das personagens femininas mais fortes e mais determinadas que li nos últimos tempos, mas essa mesma força por vezes era demasiada. Mesmo quando era apenas uma criança ela mostrava um desrespeito pelos outros que não parecia ter grande justificativa. Mas isto sou eu a ser picuínhas. Onyesonwu é fascinante, e é também fascinante a sua viagem, as suas vivências o seu desfecho.

Mwita é outra personagem que me fascinou, por si mesmo e especialmente pelo seu relacionamente com Onyesonwu.
Mas não são só estes dois. Acho que não há uma persoangem neste livro que não tenha sido bem aproveitada e o desfecho de algumas delas surpreendeu-me, na positiva, apesar de quase nunca serem desfechos felizes.

É-me difícil descrever o que sinto por este livro. Adorei-o e de igual modo me irritei com ele. Mas, olhando para trás, vejo que tudo estava lá por um propósito e embora continue a achar que em certas cenas a autora perdeu tempo demais, num todo o livro é brilhante.
Recomendo vivamente! Mas fica o aviso que é muito cru, tem muitas cenas violentas e a mentalidade da população é tudo menos moderna.

Sinopse (em inglês):
In a far future, post-nuclear-holocaust Africa, genocide plagues one region. The aggressors, the Nuru, have decided to follow the Great Book and exterminate the Okeke. But when the only surviving member of a slain Okeke village is brutally raped, she manages to escape, wandering farther into the desert. She gives birth to a baby girl with hair and skin the color of sand and instinctively knows that her daughter is different. She names her daughter Onyesonwu, which means "Who Fears Death?" in an ancient African tongue.
Reared under the tutelage of a mysterious and traditional shaman, Onyesonwu discovers her magical destiny – to end the genocide of her people. The journey to fulfill her destiny will force her to grapple with nature, tradition, history, true love, the spiritual mysteries of her culture – and eventually death itself.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Filha do Sangue

“Filha do Sangue (Trilogia das Jóias Negras 1)”, de Anne Bishop (Saída de Emergência)

De vez em quando leio um livro que me deixe com uma sensação ambígua: se por um lado adorei a dualidade das personagens e mesmo as regras deste estranho mundo, por outro odiei o facto de o nosso “herói” sentir desejo pela nossa “heroína” e agir de acordo com esses desejos quando ele só tem 12 anos. Não dá! E isto faz com que, mesmo achando alguns aspectos deste mundo fascinantes, esteja sinceramente a ponderar não continuar a série.

Mas vamos por partes:
A autora atira-nos de cabeça para este mundo que criou, sem que o leitor tenha quaisquer bases ou entendimento sobre o que se está a passar, o que faz com que o livro seja bastante confuso no início. Aos poucos fui-me adaptando mas mesmo chegada ao fim do primeiro volume, há ainda demasiadas coisas que eu não compreendo deste complexo mundo. Por outro lado existem tantas personagens e cada uma tem vários nomes, o que pode levar a que o leitor fique ainda mais confuso. Isto não me aconteceu simplesmente porque estava a escutar o audiolivro e era fácil distingui-las pelas vozes. Se não fosse isso tenho a certeza de que teria ficado “às aranhas”.
Ainda falando das personagens, gostei do facto de que quase todas elas têm um lado bom e um lado mau. Infelizmente isto não se via nas duas vilãs principais uma das quais, pelo menos neste livro, quase nem apareceu. O que fez com que fossem personagens menos interessantes. E também por esse mesmo motivo a nossa “heroína”, Jaenelle, careceu de mais interesse.
O facto de tudo o que se passava na sua vida nos ser contado através dos olhos dos outros também não ajudou mas, com tudo aquilo porque ela passou, acho que deveria haver nela muita mais crueldade. Mas talvez isso seja mudado no segundo livro.

A escrita é muito cativante e os diálogos envolventes, mas notei alguma falta de criatividade nas cenas mais sensuais (e não estou a falar nas cenas violentas, mas nas que se pretendiam ser realmente sexys). Faltava ali qualquer coisa que também notei nas cenas mais macabras. Parecia que a autora tinha medo (ou timidez) de ir aos detalhes (bons e maus).

Em suma, ainda estou a ponderar se hei-de ou não seguir com a série. A verdade é que gostei do Daemon, do Satan, do Lucivar e da Surreal, mas os pontos que já referi acima fazem-me pensar duas vezes se vale a pena investir mais tempo nesta série e nestas personagens. Talvez sim.

Sinopse:
Há setecentos anos atrás, num mundo governado por mulheres e onde os homens são meros súbditos, uma Viúva Negra profetizou a chegada de uma Rainha na sua teia de sonhos e visões. Agora o Reino das Sombras prepara-se para a chegada dessa mulher, dessa Feiticeira que terá mais poder do que o próprio Senhor do Inferno. Mas a Rainha ainda é nova, passível de ser influenciada e corrompida.E quem controlar a Rainha controlará o mundo...

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